Início Quem é? Emendas Fotos Redes Contato Links
Imagem da notícia O racismo estrutural sob o refúgio da esquizofrenia (por Fernando Rosario e Ronaldo Quadrado)

O racismo estrutural sob o refúgio da esquizofrenia (por Fernando Rosario e Ronaldo Quadrado)

05/10/2025

Artigo de Fernando Rosario e Ronaldo Quadrado analisa o mito da democracia racial e debate o racismo estrutural a partir de um episódio recente de violência racial no Brasil.

Publicado originalmente no Sul21
Leia a matéria original no Sul21

Durante muitos anos — e ainda hoje — é corrente no Brasil a noção de que não haveria racismo no país. O mito da democracia racial, cunhado em Casa-Grande e Senzala por Gilberto Freyre, é o ponto de partida dessa ideia no plano das concepções sociais.

Essa narrativa foi amplamente confrontada por autores como Florestan Fernandes e Roger Bastide, ainda na década de 1950, passando por Darcy Ribeiro, Clóvis Moura e, mais recentemente, Silvio Almeida. Esses estudos permitiram desvelar um racismo estrutural enraizado na formação histórica do capitalismo brasileiro, assentado sobre a escravidão.

Segundo essa tradição teórica, o racismo estrutural consiste em um conjunto de práticas institucionais, históricas, culturais e interpessoais que favorecem sistematicamente determinados grupos sociais enquanto prejudicam outros. Em Silvio Almeida, o racismo é compreendido como um processo histórico e político que reproduz estruturalmente privilégios e subalternidades.

É à luz desse debate que analisamos o episódio ocorrido no interior de São Paulo, no qual Mateus Abreu Almeida Prado Couto dirige ofensas racistas ao entregador Matheus Pires. A alegação de transtornos psíquicos por parte do agressor não invalida nem atenua as agressões cometidas, pois não é a esquizofrenia que cria o racismo, mas sim um contexto social que o naturaliza.

No máximo, a condição psíquica pode ter permitido que viesse à tona, sem filtros, aquilo que infelizmente está presente no imaginário de muitas pessoas que se beneficiam de uma estrutura social racista.

Episódios como esse revelam que a cultura racista permanece ativa, ainda que muitas vezes protegida por um pacto de silêncio. A omissão de quem presencia e consente com a agressão é parte integrante dessa engrenagem perversa que normaliza a violência racial.

Como aponta o sociólogo Jessé de Souza, o preconceito racial se organiza por meio de uma solidariedade perversa entre os que compartilham do racismo, garantindo a manutenção de privilégios históricos. Esse é o caráter de classe do racismo, que autoriza a violência policial, a negligência do Estado e a omissão social.

A reação contrária às políticas de cotas raciais nas universidades evidencia como esses privilégios são defendidos abertamente por seus beneficiários. Trata-se da herança escravocrata e elitista que ainda assombra o Brasil e que não desaparecerá sem luta.

(*) Fernando Rosario é professor da rede pública e privada em Pelotas.
Ronaldo Quadrado é Conselheiro Tutelar em Pelotas.


🔗 Fonte: Sul21 — O racismo estrutural sob o refúgio da esquizofrenia